Vida real e ficção se misturam em ‘Suburbia’


Numa simbiose que só pode ter um resultado interessante, a história dos personagens criados por ele e o autor Paulo Lins tem pontos de encontro com a história dos atores que estão em cena. O método já foi testado antes, não por acaso em Cidade de Deus, longa-metragem de 2002 de Fernando Meirelles e Kátia Lund baseado no livro de Lins. “Do ponto de vista do enredo, as obras são completamente diferentes”, anota o autor. “Suburbia mostra a força da cultura e da religiosidade na periferia, e em Cidade de Deus a visão era através do tráfico e da violência.”

A minissérie conta a história de Maria da Conceição (Débora Nascimento/Erika Januza), que no Rio de Janeiro se tornará a Suburbia, miss suburbana do título. Ela foge do trabalho nos fornos de carvão de Minas aos 12 anos para ver o Pão de Açúcar. Na cidade, vai parar numa instituição para menores infratores, e enfrenta todo tipo de injustiça e humilhação. Já com 18 anos, é acolhida por uma família amorosa de Madureira, o bairro da zona norte que inspirou o Divino de Avenida Brasil.

“Como manter a noção de justiça e os princípios éticos e morais em uma era marcada por violência, desigualdades e decadência de valores?” é a pergunta que a série propõe ao telespectador, apresentando as respostas possíveis a cada um dos personagens. “Sabe a sensação de não pertencer a lugar nenhum?”, diz o protagonista Cleiton (Fabrício Boliveira). “Se a vida não sorriu pra mim, eu não vou sorrir pra ela”, pontua o bandido Tutuca (Flávio Rocha).

Na fase adulta, Conceição é interpretada pela estreante Erika Januza, mineira de Contagem que como sua personagem apostava no talento artístico, mas já estava um tanto desanimada por causa das dificuldades. “Eu pensei ‘ah, isso não é pra mim não’”, diz ela, que até ser descoberta pelo diretor trabalhava como secretária numa escola.

A rival da heroína é Jéssica. Bicampeã no concurso Miss Subúrbio e funkeira, ela vai se incomodar, claro, com a chegada de Conceição. A atriz é a exuberante Ana Pérola, que trabalhava como gari no Rio ao ser vista pela produção.

O elenco tem ainda integrantes dos grupos AfroReggae e Nós do Morro, que há tempos fornecem talentos para TV, e outras descobertas pouco prováveis, como dona Serafina Terezinha Pereira, que vive a mãe de Conceição – mais conhecida como Dona Fininha é uma benzedeira de Belo Horizonte.

“Na verdade, são pessoas que já tinham um potencial artístico, que foi percebido pelo Luiz”, observa o ator Fabrício Boliveira, o protagonista Cleiton. “Minha maior dificuldade foi me misturar a eles, porque não poderia me destacar, excessivamente interpretando. O processo foi muito bacana: dei uns toques neles e também tirei alguns vícios meus.”

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